Após censura, O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu volta ao FIG nesta sexta

Artistas se unem em uma rede de solidariedade a favor da peça O evangelho segundo Jesus, rainha do céu, protagonizado pela atriz e mulher trans Renata Carvalho, que foi retirada da programação do Festival de Inverno de Garanhuns (FIG). Para combater a transfobia e a censura, o espetáculo foi abraçado por um grupo que criou a campanha A liberdade TRANSforma, encabeçado por Rodrigo Dourado e Chico Ludermir. A peça será encenada em duas sessões nesta sexta-feira (27), em local ainda não divulgado, no município do Agreste pernambucano. Vítimas de ataques nas redes sociais, a organização vai manter o local em sigilo, revelando no dia do evento para as pessoas que compraram ingresso antecipados. Um esquema de segurança também será reforçado.

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O espetáculo convidado para a 28ª edição do FIG integrava o debate proposto pelo tema-homenagem do FIG: Um viva à liberdade. Após exigência do prefeito da cidade, Izaías Régis (PTB), que se mostrou contrário à apresentação e carta enviada pela Diocese de Garanhuns, onde o bispo Dom Paulo Jackson ameaçava “proibir que a Igreja Catedral fosse utilizada como um dos palcos do festival”, a produção foi retirada da programação. A peça é um monólogo e traz histórias bíblicas sob a perspectiva contemporânea. O texto é de Jo Clifford, traduzido e dirigido por Natalia Mallo, e já foi encenado no Recife, dentro do Trema! Festival.

Os artistas que fizeram parte do primeiro fim de semana do FIG ampliaram o debate e defenderam a liberdade de expressão. A cantora Daniela Mecury fez discurso ao subir no Palco Mestre Dominguinhos, beijou a esposa e se mostrou indignada com a polêmica. “Não me venha agora com ignorância de conceituar o que é arte e o que não é arte. Censurar uma peça de teatro por convicções religiosas é um absurdo e isso não pode ser permitido. A nossa Constituição não é a Bíblia”, afirmou.

O cantor Lirinha, do Cordel do Fogo Encantado, também homenageou Renata, dedicando a música Liberdade, a filha do vento para a atriz. “O perigo de atitudes como essa é que repercute quase que como incentivo à intolerância e ao ódio. Em todos os palcos do FIG os artistas estão empenhados para que a liberdade se cumpra. Quando a gente vê que os direitos básicos estão entrando em um retrocesso de usurpação e quando temos que lutar contra um ato ilegal de um gestor público”, defende Roger de Renor, que assina curadoria do Som na Rural, palco instalado no Parque Euclides Dourado.

Ataques

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Nas redes sociais, as publicações sobre o espetáculo O evangelho segundo Jesus, rainha do céu, receberam diversas ameaças. “As ameaças vão desde ‘vamos fazer protestos’, a ‘vou dar pauladas’, ‘meter o tiro’, entre outras. Esse tipo de linguagem de ódio vem de pessoas que se intitulam em defesa da religião. É uma coisa muito agressiva e perigosa”, aponta a diretora Natalia Mallo. “A gente está preocupado e assustado. As pessoas não têm vergonha de usar seus perfis pessoais dizendo que vão bater, matar e crucificar. E essas ameaças vêm em nome de Deus”, comenta um dos articuladores do espetáculo em Garanhuns, Chico Ludermir.

Segundo os organizadores, cerca de 40 ameaças foram protocoladas na delegacia e no Ministério Público. “A cidade precisa discutir o tema. Os ataques se intensificam quando políticos endossam esse preconceito”, explica Chico. No sábado, o coletivo A liberdade TRANSforma vai promover roda de diálogo com a Comunidade LGBT de Garanhuns, no Parque Euclides Dourado, para discutir temas como a censura e o combate à transfobia. “As pessoas colocadas à margem não vão mais se calar e não aceitam ser silenciadas e censuradas”, completa Chico.

Por: Marina Simões – Diario de Pernambuco




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