Com fim do auxílio emergencial poder de consumo dos brasileiros mais pobres vai cair 17,7%


Uma reclamação cada vez mais comum entre os brasileiros é que “está tudo muito caro”. Isso acontece porque os preços de itens essenciais dispararam nos últimos meses, o que faz diminuir consideravelmente o poder de consumo dos que ganham menos, conforme aponta um estudo da Tendências Consultoria.

O brasileiro vem enfrentando altas constantes no preço de produtos que ele consome diariamente, como alimentos da cesta básica, gás de cozinha e gasolina, que já subiu 25% em 2021 e atingiu o maior preço da história. Além disso, também precisa pagar pela bandeira vermelha patamar 2 na conta de luz, que aumentou 52% neste mês.

Com todas estas situações, os mais pobres são os mais prejudicados com o disparo na inflação em 2021, perdendo poder de consumo enquanto fica mais difícil pagar pelos gastos essenciais. E após o fim dos pagamentos do auxílio emergencial, a renda destas pessoas irá cair ainda mais.

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Poder de consumo cai mais de 17% entre as classes D e E. Foto: Reprodução/Freepik

Segundo o estudo da Tendências, o dinheiro que sobra após as despesas básicas será 17,7% menor em 2021 para as classes D e E. Enquanto isso, a chamada “renda disponível” deve aumentar 3% na classe A.

O levantamento considera como “gastos essenciais” despesas com alimentação, transporte, habitação, saúde e cuidados pessoais, educação e comunicação.

O impacto negativo no consumo é direto, já que a renda dos mais pobres vai toda para o consumo. Houve enxugamento das transferências sociais, e a retomada do mercado de trabalho está muito gradual” explicou Lucas Assis, economista da consultoria, ao jornal O Globo.

O “enxugamento das transferências” sociais citado por Assis inclui a diminuição no valor do auxílio emergencial, que em algumas cidades não chega a comprar 25% de uma cesta básica.

Brasileiros que mais perderam poder de consumo em 2021

As classes D e E representam 54,7% da população brasileira e são as mais prejudicadas por este cenário. Para estas famílias, que ganham até R$ 2.700, as constantes altas com gastos essenciais e a diminuição no valor do auxílio emergencial afetam diretamente no poder de consumo.

Nos últimos 12 meses, há alimentos da cesta básica que subiram absurdamente. O óleo de soja, por exemplo, subiu mais de 86%, e a alta no arroz foi de 51,83%. Outros itens que aumentaram bastante foram o feijão preto e o açúcar cristal, 31,26% e 23,86%, respectivamente.

Conforme explica o coordenador das pesquisas de preço da Fundação Getúlio Vargas (FGV), André Braz, essas altas fazem toda a diferença para os que ganham menos.

Quanto menor o salário, maior o gasto com comida. Se sobe muito o preço, aquela família que tem renda muito baixa não com pra outra coisa que não comida”, afirmou ao Globo.

Para os próximos meses, as expectativas não são as melhores. Para a consultora econômica Zeina Latif, a inflação deste ano deve ficar em 6,3%, bem acima da previsão do Banco Central. Além disso, Latif afirma que os alimentos continuarão subindo, os juros ficarão mais altos e os valores dos aluguéis também.

O que também deve subir são as tarifas do transporte público, segundo a supervisora de pesquisa de preço do Dieese, Patrícia Costa. Segundo ela, a alta de 39,3% em 12 meses no preço do diesel deve gerar reajustes e, mais uma vez, penalizar as famílias mais pobres.

Além disso, é importante lembrar que todo este cenário acontece às vésperas das eleições, o que pode gerar novos elementos para tentar melhorar a aprovação do governo, por exemplo.

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Confiança dos mais pobres na economia é menor

Em meio à crise, as famílias com renda menor se mostram menos otimistas em relação à melhora da economia. Segundo a Sondagem do Consumidor da FGV realizada em junho, o índice das famílias que ganham até R$ 4.800 está em 72,4 pontos, enquanto as que têm renda acima deste valor marcaram 88,8 pontos.

Conforme aponta a coordenadora das sondagens da FGV, Viviane Seda Bittencourt, essa é a maior distância da série histórica da pesquisa, que começou em 2005.

De acordo com a pesquisa, enquanto os que ganham mais se mostram otimistas com o futuro, os mais pobres estão mais pessimistas hoje do que estavam antes da pandemia. Segundo Viviane, fatores como redução do auxílio emergencial, perda de emprego e renda e alta no preço dos alimentos ajudam a explicar este pessimismo.

Fonte: O Globo.

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Jornalista, ator profissional licenciado pelo SATED/PR e ex-repórter do Jornal O Repórter. Ligado em questões políticas e sociais, busca na arte e na comunicação maneiras de lidar com o incômodo mundo fora da caverna.